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Expointer Digital

Painel projeta futuro do agronegócio brasileiro no pós-pandemia

Mesmo com as dificuldades, como carência estrutural visto que mais de 70% dos estabelecimentos rurais não têm conectividade, setor é o único com variação positiva.

Gabriela Barcellos

A Expointer é a maior feira agropecuária a céu aberto da América Latina e a não realização do evento por conta da pandemia causada pelo novo coroanvírus não era uma opção para a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr). Assim foi cirada a Expointer Digital, um evento inédito na história dos 50 anos do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio. O evento teve início no último sábado, 26/9, e segue até amanhã, 4/10. 

A simples realização do evento já é uma demonstração de adaptação do agro por força da pandemia. E este foi exatamente um dos temas abordados nos painéis do evento, ainda na terça-feira, 29/9. "O agronegócio brasileiro e o pós-pandemia: perspectivas para 2021" debateu sobre como a pandemia impactou no setor econômico e quais são as projeções para o agronegócio em 2021. A conversa foi transmitida pelo site da Expointer Digital 2020. "Este foi um ano de grandes desafios para o produtor gaúcho, mas devemos aprender com o passado para projetar o futuro", destacou o secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Covatti Filho.

Para o presidente da Farsul, Gedeão Pereira, a pandemia testou a capacidade do setor agropecuário brasileiro em manter o abastecimento dos mercados. Ele lembrou que, além de manter os mercados abastecidos, o setor conseguiu cobrir um aumento de 20% do consumo da população, além de um aumento de participação nos mercados internacionais. Para ele, a principal preocupação no pós-pandemia será a recuperação econômica sem o aporte do auxílio emergencial, que injetou mais de R$ 300 bilhões.

Setor arrozeiro cautelosamente otimista

No setor orizícola o ano de 2020 está sendo bastante diferente na avaliação do diretor técnico do Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga), Ivo Mello. Ele destaca que a safra teve a menor área nos últimos 10 anos, pelos custos elevados de produção e pouco retorno, ao mesmo tempo em que o consumo interno aumentou por causa da pandemia e, além disso, exportadores de arroz pararam de vender no mercado internacional. "O Brasil conseguiu ampliar as exportações por causa disso", avalia.

Para ele o pós-pandemia para o setor arrozeiro será de otimismo cauteloso, com a intenção de semeadura projetando um aumento de 5% na área cultivada da próxima safra. "Os produtores não querem apostar muito pois já vivenciaram períodos de alta como esse. Eles querem investir na melhoria genética do arroz para poder lucrar mais e esperam uma rentabilidade a partir do patamar de R$ 60 a R$ 65, o que seria um cenário bastante promissor para o setor arrozeiro. O mercado internacional seguirá sendo uma opção", diz.

Agro puxa a economia

 "A variação projetada do PIB para 2020 no Agro é de 1,9%, e em 2021 será de 2,5%", conta o professor Felippe Serigati, do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo ao apresentar dados sobre a recuperação econômica do país no pós-pandemia. De acordo com seus estudos, o setor agropecuário foi o único com variação positiva.

Serigati ressalta que a agroindústria (insumos agrícolas, alimentos, bebidas, têxtil, biocombustível, papel, entre outros) já voltou para o patamar pré-crise. "A greve dos caminhoneiros em 2018 atingiu mais fortemente este segmento do que a pandemia", exemplificou.

No entanto no âmbito geral a recuperação econômica não é homogênea. "Comércio varejista e indústria estão recuperando, mas no setor de serviços a recuperação está mais lenta. O setor de serviços é o que gera a maior fração dos postos de trabalho e a maior fração do PIB". Para o professor, o principal desafio será manter as taxas de recuperação econômica quando o auxílio emergencial for retirado.

Mudanças que vieram para ficar

A pandemia de Covid-19 trouxe novos hábitos, para produtores e consumidores - e muitas dessas mudanças podem ter vindo para ficar. Esta é a avaliação da superintendente técnica adjunta da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), Natália Fernandes. "Com a pandemia, as pessoas passaram a comprar mais alimentos básicos e saudáveis. Já os produtores rurais começaram a utilizar mais os canais digitais como ferramenta na compra de insumos e comercialização de sua própria produção. Serviu como um catalisador para o processo de revolução digital no campo", avaliou. O momento também expôs uma carência estrutural, em que mais de 70% dos estabelecimentos rurais no Brasil não têm conectividade. "Investimentos serão fundamentais para aumentar essa cobertura", frisou.

Exportações de carne para novos mercados

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antônio Camardelli, pontuou que o fato de a pecuária ter sido declarada como uma atividade essencial manteve o ritmo de produção. A expectativa para 2021 é que haja a ampliação de mercados internacionais, principalmente com o reconhecimento do Rio Grande do Sul como zona livre de febre aftosa sem vacinação.

"O Brasil não tem acesso a cerca de 40% do mercado mundial de carnes, e alguns dos entraves são barreiras sanitárias. Estes mercados pagam muito bem pela tonelada, como Japão e Coreia do Sul. A tendência é ampliarmos o espaço e fortalecermos nossas ligações com parceiros comerciais tradicionais, como China e Estados Unidos", concluiu.


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