URUGUAIANA JN PREVISÃO
João Eichbaum

Era uma vez um soldado

O soldado é preparado para a guerra e não para a paz. Ele sabe que jamais conquistará a paz, quem não estiver preparado para a guerra. A sabedoria dos romanos ultrapassou os séculos, varou mares e oceanos e continua até hoje ensinando: "si vis pacem para bellum" (se queres paz, prepara-te para a guerra).
Essa foi a formação que teve o presidente da república Jair Messias Bolsonaro. Até porque ele não foi um soldado qualquer, um soldado comum, mas um soldado que, para atingir seus objetivos, para cumprir sua missão, precisa, antes de tudo, empenhar a própria vida, oferecê-la como penhor, como garantia de que a missão será cumprida: Bolsonaro foi paraquedista.
Uma formação desse viés não prepara gentelmans, pessoas que falam pisando em ovos, fazendo beicinhos de quem está pronunciando palavras em francês, criados entre almofadas e alfaias, para não juntar calos no bumbum de moça. Essa formação prepara homens mais propícios para excessos do que para palavras, ações e gestos comedidos.
Bolsonaro não abandonou essa formação, não adquiriu jeito de moça, de noviça tímida. Continuou agindo como se soldado ainda fosse, até com seu linguajar de quartel. Sempre foi assim e, por ser assim, é que foi eleito.
Mas, desde o início de seu mandato como presidente da república, foi alvo de infensas decisões do Supremo Tribunal Federal, sem trégua. Em razão disso, se agigantou seu apoio popular. Aí, em resposta, o STF, tomando as manifestações do povo como ameaças à instituição, instaurou um inquérito com teor inquisitório, determinando medidas coercitivas, incluindo prisões, contra apoiadores de Bolsonaro. Principal personagem dessas medidas: Alexandre de Moraes.
Abespinhado com tais atitudes, Bolsonaro resolveu mostrar que era apoiado pelo povo. Sua voz de soldado ecoou como declaração de guerra. E no dia 7 de setembro, multidões como nunca se viu em apoio a um político, exibiram a força popular,  num mar verde e amarelo, ondulado pelo pendão da pátria. E o clamor das multidões lhe arrancou uma cólera bíblica, fazendo-o bradar: "qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes esse presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou, ele tem tempo ainda de pedir seu boné e cuidar e de sua vida. Ele, para nós, não existe mais".
Mas, a postura do valentão Jair Bolsonaro é que deixou de existir, no dia seguinte. Bolsonaro recuou, roeu a corda, pediu socorro a Michel Temer, o matreiro padrinho de Alexandre de Moraes, com quem trocou abraços e o ósculo da paz.  
Assim, ficou o dito pelo não dito, não está mais aqui quem falou. Tudo revogado pela desculpa: "foi o calor do momento". O soldado pediu baixa, para se transformar num político como qualquer outro, que só muda de cara para pedir voto; que nada faz sem arreglo, sem invocar aquela regra de meretrício, o "é dando que se recebe". Escafedeu-se o candidato eleito pelo povo, para fazer o que ele, povo, queria: levar a decência aonde ela nunca chegou, e livrá-lo dos gigolôs do fisco.

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