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BRIANE MACHADO

Somos Macabéa?

"Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho".

A frase acima é só uma das incontáveis reflexões contidas na obra "A hora da estrela" de Clarice Lispector.

Clarice, sempre muito articulada psicologicamente em suas obras, incluiu de forma longínqua e atual todas as suas particularidades para descrever e entender o que se passa na mente humana - embora, não tenha sido psicóloga ou terapeuta, conseguiu emergir de seus personagens a epifania de momentos cotidianos.

A frase supracitada invade o pensamento de quem a lê e, automaticamente, nos colocamos a pensar sobre o que, na primeira leitura parece tão óbvio, porém, com significados tão abstrusos.

Quando pensamos no conceito de simplicidade, logo temos a clara noção de algo que não precisa de grande esforço ou, quiçá, de tortuosos conflitos para ser alcançado.

Ao buscarmos a sua definição no dicionário, nos deparamos com "ausência de complexidade" e, aproximando-se do nível profundo exposto por Clarice, há uma pessoa "franca, sincera, que expressa seus sentimentos com simplicidade, falta de luxo, sem sofisticação".

Seria essa a perfeita descrição da protagonista Macabéa?

Nós, enquanto seres humanos, temos um emaranhado de sentimentos, pensamentos e atos que, muitas vezes, não condizem com aquilo que realmente buscamos.

A complexidade que habita em cada pessoa é, na verdade, difícil de ser lidada por si e, enquanto seres sociais somos, por inúmeras vezes ao longo da vida, desafiados pela disparidade quase plural dos pensamentos orgânicos.

Assim, "simplicidade" e "trabalho" parecem, na verdade, antônimos daquilo que tanto planejamos, principalmente, quando chegamos à fase adulta.

O trabalho nos remete ao esforço, muitas vezes, homérico que a grande maioria faz para alcançar o mínimo possível para a existência terrena.

Entretanto, o trabalho que tanto nos desafia não tem a ver com os cifrões que queremos acumular na conta bancária ou na facilidade de receber um boleto sem que seja necessário ter um surto momentâneo.

No mesmo sentido, a simplicidade não está intimamente relacionada ao fato de se abster daquilo que se quer adquirir ou de viver de forma minimalista, no sentido de fazer escolhas certeiras e ocasionais.

No fundo, e Clarice sabia muito bem disso, queremos a simplicidade de uma existência de fácil gestão, que nos remeterá de forma descomplicada àquilo que temos por felicidade.

A vivência gerenciável é o que nos coloca no limbo por alguns bons anos - pelo menos, para a maioria de nós. Desmistificar e aliviar os fardos que, na grande maioria das vezes, fazemos questão de carrega-los, mesmo de forma desnecessária, é a grande virada de chave da complexidade que nos preenche.

O esforço para simplificar a vida é o grande trabalho que desempenhamos ao longo dos anos. Quanto mais trabalhamos em nós mesmos, mais simples se torna a caminhada, para nós e para quem está nos acompanhando.

Possivelmente, para alguns, desempenhar o trabalho dentro de si e, organizar todas as prateleiras dos inúmeros setores do complexo humano está na concorrência com a construção das pirâmides do Egito, para outros, o entendimento da fase inicial pode ser comparado ao mito da origem contido na Torre de Babel, onde a compreensão idiomática era (quase) inexistente.

Para todos nós, atingir a simplicidade carece de articulação entre os múltiplos domínios que compõem a evolução humana.

Tão simples, porém tão complexo. Soa até antagônico.

Bom dia e bom trabalho!

 

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